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Pesquisa orientada pelo Prof. Hércules Tolêdo Corrêa aborda práticas de letramento de grupo de jovens ouro-pretanos

O letramento é compreendido como uma prática que envolve os usos sociais da linguagem oral e escrita nos vários contextos do cotidiano. Com o objetivo de provocar discussões sobre as diversas formas de letramento, bem como debater questões voltadas à afirmação da identidade negra e das culturas da juventude residente na periferia de Ouro Preto, o projeto Práticas de letramentos no grupo “A Rede”: o movimento hip-hop em Ouro Preto tem buscado investigar o modo como jovens se organizam em um ambiente educacional não institucionalizado.

Desenvolvido pela mestranda Fabiana Correia Justo, o projeto faz parte do grupo de estudos Multiletramentos e usos das tecnologias digitais de informação e comunicação na Educação (MULTDICS) e é orientado pelo professor do Programa de Pós-Graduação (PPG) de Mestrado em Educação da UFOP, Hércules Tôledo Correa. O tema da pesquisa surgiu quando a aluna acompanhou as práticas de letramento em língua portuguesa em escolas da região de Ouro Preto e Mariana, em um projeto de iniciação científica vinculado ao Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB), sob orientação da professora do Departamento de Letras Kassandra Muniz. O foco dessa pesquisa eram as práticas de letramento desenvolvidas no ambiente escolar. Na oportunidade, Fabiana teve contato com estudantes que fazem parte do movimento sociocultural independente “A Rede”, que reúne jovens de diversas faixas etárias de diferentes bairros periféricos da cidade de Ouro Preto.

Em sua pesquisa, de caráter etnográfico, a mestranda estuda o caso do movimento “A Rede”, cujos participantes estão constantemente escrevendo músicas, publicando nas redes sociais e criando novas maneiras de se comunicar: "Eles se mostram multiletrados e interagem em multilinguagens, principalmente em práticas digitais” , explica. São mais de 60 envolvidos que se reúnem periodicamente e utilizam a linguagem digital e midiática para produção de material sobre cidadania, questões éticas e raciais. Sob orientação de Teco, membro do FIROP (Fórum de Igualdade Racial de Ouro Preto), eles desenvolvem atividades ligadas ao hip-hop e ao rap dentro das comunidades. São produzidas letras de músicas, por exemplo, que constituem o portfólio do próprio grupo - que conta, ainda, com um variado acervo de livros e material midiático que circula entre os integrantes.

O evento “Mostra Cultura Fala Favela” é um exemplo de como esses jovens usam a linguagem para marcar um lugar de identidade negra positiva de alguém que é da periferia e consegue se legitimar em diversos espaços. A manifestação cultural é uma iniciativa do próprio movimento e acontece em diversos bairros da cidade, onde são apresentadas as músicas e trabalhos artísticos. Fabiana explica que, além da linguagem escrita, "existe uma exploração sobre o corpo como suporte à indumentária que constitui uma forma de reafirmação do caráter identitário desses jovens", a exemplo da expressão "Só vai colar quem é de aba reta": "Essa frase é utilizada na divulgação do evento e tem linguagem singular, que permite pensar uma alternativa de comunicação utilizando uma variação da linguagem”, afirma a pesquisadora.

O grupo conta ainda com o espaço do “Fala Favela”, programa de rádio que vai ao ar pela Rádio Província FM de segunda a sexta-feira e é apresentado por um dos diretores d'A Rede, DJ Teco. O programa é utilizado como meio de divulgação da agenda de ações culturais, entrevistas com ativistas sociais e espaço para interação com a comunidade sobre cidadania.

Na fase atual da pesquisa, Fabiana coleta dados das reuniões que frequenta e das diversas práticas que acompanha, realiza entrevistas com os participantes com o objetivo de identificar a relação entre elas e as desenvolvidas no ambiente escolar. Segundo ela, “há possibilidades de existir convergências dessas práticas, muito mais do que divergências. A escola foi pensada para construir uma elite cultural e, com o passar do tempo, foram entrando outros sujeitos, com outras formas de linguagem, logo, ela tem que repensar em como receber esses alunos”, pontua. Outro questionamento realizado na pesquisa trata da suposta dificuldade de os alunos de escolas públicas se posicionarem criticamente em textos: “Eles escrevem resenhas dos eventos, dos encontros, relatam no Facebook como as coisas aconteceram, com engajamento político”, diz.

As práticas de linguagem artísticas e culturais do movimento hip-hop são utilizadas pelo grupo para construção de uma identidade negra dentro do segmento jovem Ouro Preto. Como observa Fabiana, eles têm consciência de que a linguagem estabelece uma relação de poder e evidencia características, positivas ou negativas. Com as ações desenvolvidas pelo grupo, existe a tentativa de desconstrução de um estigma negativo com relação à periferia e ao corpo negro. Fabiana acredita, ainda, que as pesquisas podem servir de suporte para o desenvolvimento de políticas públicas para o letramento de jovens e adultos: “Os jovens d'A Rede, além de circularem por outros espaços da cidade, oferecem cursos de formação para jovens de outros grupos da região e podem ser considerados agentes de letramento em suas comunidades”, conclui.

A relação entre o movimento hip-hop, surgido nos Estados Unidos da América por volta dos anos 1970, que se espalha pelos países ocidentais e se desenvolve no Brasil por volta dos anos 1980, e os jovens de uma cidade histórica com uma população predominantemente negra tem força, como conclui o professor Hércules, e é um dos entendimentos buscados pela pesquisa que está diretamente ligada à discussão sobre os termos “global” e “local”. “É preciso reconhecer que vivemos um momento de rompimento de uma série de paradigmas, de mudanças sociais, de readequações e que a melhor maneira de lidar com as questões emergentes na sociedade é conhecendo as suas fundamentações", explica o professor, que completa: "Queremos entender como essa cultura local, específica, regional, se insere num contexto mais geral, o global”. Segundo ele, é importante explicitar, ainda, que o projeto tem em vista a quebra de preconceitos e a utilização do termos periferia é dada pela localização espacial e por ser um grupo constituído fora do espaço central da cidade.

 

Fonte: Douglas Gomes - Site da UFOP